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Janaína Entrevista Juca Magalhães - O Livro do Pó
15/07/2010


Jannaina Azinaro
 
 


Saudosos anos 80! Quem viveu aquela época sente vontade de voltar um cadim no tempo e pegar carona no balão mágico, que assistíamos todos os dias na tv, rir vendo a TV Pirata, com seu humor cheio de escárnio e inteligência, lotávamos os cinemas para ver o sucesso “Amadeus” (de Milos Forman) com a escandalosa gargalhada do personagem título, que ganhou 8 oscars.

Aqui no Brasil vivíamos uma efervescência cultural que fez escola em todos os níveis. Na política sai a ditadura e entra a democracia, assistimos a volta do irmão do Henfil, as Frenéticas esbravejavam: “abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia e entre nesse festa”, o Brasil era uma festa, o clima era permissivo e efervescente, era a época das performances nos bares, nas ruas e onde mais as pessoas quisessem, a música brasileira vivia uma fase produtiva e criativa, nascia o Roquenrol Brasil, as maiores bandas de rock despontaram nos anos 80, como Legião Urbana, Engenheiros do Hawai, Plebe Rude, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, entre outras, o rock BR (como ficou conhecido depois) começava a tomar forma com essa galera.

Você também sente saudade dos anos 80? Então vai ter uma bela oportunidade de saciá-la com o lançamento do “Livro do Pó”, cujo autor, Juca Magalhães, narra suas peripécias nos anos 80, e também, a trajetória da banda capixaba “Pó de Anjo”, que desvirginou o rock capixaba e mostrou que é possível ser popular e fazer sucesso sem ter que morar no Rio de Janeiro.

Segue a entrevista.

1 – Por que vocês colocaram o nome da banda de “Pó de anjo”?

Isso tá no livro, mesmo porque foi uma coisa que foi meio polêmica, porque no final das contas a gente perdeu o nome da banda... Por isso que eu falo, a história tem seus vilões.

2 – Mas por que “Pó de Anjo”, tiraram de onde?

A gente tava saindo de uma banda chamada Ace que ensaiava no Castelamares e a gente não tinha um nome novo, todo mundo ficava pensando o tempo todo num nome pra banda porque o nome Ace também não agradava a gente - nome americano, né? - e um dia eu estava lendo naquela antiga revista Manchete uma reportagem sobre uma droga nova que tinha aparecido, fortíssima, que se chamava Pó de anjo. Daí fiquei pensando: que nome legal pra banda! Droga era tudo que a gente achava chique, naquela época foi o período do “liberou geral”, não tinha mais a ditadura, tinha-se a sensação de que se podia tudo, o rock virou mainstream, coisa que nunca tinha acontecido, achamos esse nome massa, daí acabamos com o Ace e começava o Pó de anjo.

3 – As pessoas faziam a ligação do nome da banda com drogas?

Faziam a ligação direta com a cocaína, embora ninguém na banda fizesse uso, ninguém cheirava, não se falava em uso de cocaína em Vitória. Várias vezes fomos a lugares onde as pessoas achavam que éramos extremamente doidões, mas nós éramos pirralhíssimos, né? Eu por exemplo, quando a banda começou, tinha 18 e 21 anos quando acabou. Não tinha essa onda com a gente... O que não quer dizer que não usássemos outros tipos de drogas, mas isso é história que tá no livro...

4 – Em que ano começava o Pó de anjo e quando acabou?

Foi de 1984 a 1987, três anos ao todo.

5 – O livro do pó é uma espécie de biografia da banda?

Não é uma biografia, a banda Pó de anjo entra lá pelo terceiro capítulo, porque foi o auge da minha experiência na música, então obviamente ocupa a maior parte do relato, mas o livro não é sobre a banda, é a minha experiência. A história começa lá atrás, muito antes de entrar em banda, tem as bandas com Danny Boy, até chegar o Pó de anjo, tem tudo que aconteceu antes e também depois que a banda acabou. Não é uma biografia da banda Pó de anjo, mas daquele período, outro dia um cara me falou: mas que interesse vai ter a história de uma banda daqui? Ué, é muito interessante você pegar uma biografia do Lobão e saber das impressões dele, assim como Titãs, Barão Vermelho, mas é interessante também você saber da história daqueles que não chegaram lá, esse pessoal fora do eixo Rio-São Paulo querendo chegar ao sucesso, como esse pessoal vivenciou isso?

6 – Onde fizeram o primeiro show?

Na danceteria New Wave, que era o lugar mais descolado aqui em Vitória, tinha palco pra show, tinha fliperama, boliche, tinha o escambau lá, e o dono (o empresário Mario Gallerani Junior) queria inaugurar o lugar com uma banda de rock, o rock por aqui era muito incipiente ainda, e o cara ficou besta quando viu o Pó ensaiando, gostou e falou: vou botar esses moleques pra tocar aqui.

7 – E vocês faziam muitos shows?

A gente fazia muito show, às vezes fazíamos pequenas turnês, tocando nos fins de semana, um dia em Itaguaçu, outro dia em Itarana, rodamos o Espírito Santo quase todo.

8 – Como era a atmosfera dos lugares que vocês tocavam, era bem rock'nroll?

Nem sempre (quase nunca), o tal do Rock Brasil era uma coisa nova e a gente tocou muito no interior, sentíamos um estranhamento muito grande, geralmente não dava muito público ou não éramos recebidos com muito interesse, as pessoas queriam ouvir gente famosa, tinha até quem perguntasse se a gente já tinha tocado no Chacrinha! Aqui em Vitória não tinham casas de shows como agora, então não tínhamos muitas opções pra tocar, não tinha nem estúdio de gravação!

9 – Qual sua principal intenção ao lançar esse livro?

Pergunta difícil... Eu queria escrever uma história, eu precisava escrever essa história. Durante muito tempo fiquei escrevendo e quando ela ficou pronta eu quis publicar, não tenho a intenção de transformar uma coisa que foi xinfrim e dizer que foi uma coisa super poderosa, um super grupo, o Pó de Anjo não foi isso, mas são impressões daquela época, pra mim foi muito legal escrever, foi um exercício até de amadurecimento muito legal, e quando alguns amigos leram, ficaram emocionados, ligaram pra agradecer. Muitas coisas a gente esquece com o tempo, e quando você faz um exercício desse a memória parece que começa a puxar, mas também puxa uma pergunta e essa pergunta as vezes tem resposta e as vezes não.

10 – E você foi atrás do que não conseguiu responder?

Sim, a banda ajudou, mas, por exemplo: conversa, conversa e ninguém consegue lembrar qual foi a ordem de um show, se foi primeiro na Escola Técnica ou no Castelamare, daí recorri a recortes de jornal da época que ajudaram bastante.

Uma coisa básica: eu não fiz o livro pra atacar ninguém, nem pra me vingar de ninguém.

11 – Mas por que você diz isso? Há pessoas que vão se sentir atacadas?

Tem gente que pode se sentir atacada sim, eu tava relendo algumas partes... E eu suavizei muita coisa, tentei tirar alguns comentários que achei demais, não precisa, pra quê isso, né? Mas no fundo, a gente comete erros na vida, e esses erros vão ser julgados pelas pessoas que vão vir depois. Eu escrevi a história do jeito que ela bateu pra mim, é óbvio que pra outras pessoas ela bateu diferente, é o que alguns amigos já me falaram: olha não foi desse jeito que aconteceu não, mas do jeito que você escreveu ficou legal! Então pra alcançar uma unidade na história, eu amalgamei personagens, eu juntei pessoas, duas em uma só, eu tive a intenção de descaracterizar mesmo até pra preservar a intimidade dos verdadeiros envolvidos.

12 – Qual foi o legado que a banda Pó de Anjo deixou?

Foi a banda que deu o ponta pé do pop rock no estado, existia antes no Brasil aquele movimento tropicalista roqueiro, de Mutantes, de Rita Lee de Raul Seixas, mas não era mainstream, não era um sucesso, como nos anos 80 foi. Foi uma época em que só se tocava rock de fora a fora no Brasil, e essa onda a gente dropou aqui num curto período de três anos, nesse bolo vieram outras bandas e ainda outros cenários dos anos 90 em diante. Hoje tenho certeza que o nosso pioneirismo foi fundamental para alavancar a cena e botar pilha nos que vieram depois.

Ficou a fim de ouvir Pó de Anjo? Vá lá no lançamento do Livro do Pó.

Serviço: Lançamento do Livro do Pó, no dia (Internacional do Rock) 13 de julho, no Teacher's Pub, 21 horas. Rua Rômulo Samorini, 33. Praia do Canto, próximo à ponte Ayrton Senna. Shows com Pó de Anjo "unplugged", Soultogroove e muito mais. Entrada Franca. Não percam!
robertobeling.com
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