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Laços de Anchieta
08/06/2010


Kleber Galvêas
 
 
Os passos de Anchieta são seguidos todos os anos no Espírito Santo, de Vitória à antiga Reritiba, desde 1998, mantendo laços do pioneiro do teatro nacional com os capixabas.

Barbados é um país-ilha. Inabitado em 1535, ganhou esse nome dos portugueses, devido à grande quantidade de bromélias (tillandsia usneoides) que pendem como barbas das árvores. A ilha é um coral arborizado, onde não há nascente, lagoa ou riacho. Enriqueceu no séc. XVII produzindo açúcar com know-how pernambucano. Na sinagoga de Bridgetown, túmulos dos pioneiros mostram inscrições em português. Hoje, a riqueza do país é o turismo, e nisto pode nos ensinar. A disposição dos barbadianos para contar histórias, que vão de Piratas do Caribe, a George Washington, atraem muitos turistas.

Quem visita a ilha pode ter a impressão de que o primeiro presidente americano viveu ali muito tempo. Em publicações locais ele é sempre apresentado com 18 anos. Bem diferente do retrato na nota de U$ 1,00.

A casa onde se hospedou virou museu. O assoalho foi retirado; e a terra, peneirada. O material encontrado pode ser visto em estantes bem iluminadas. A praia que frequentou, o trajeto suposto do passeio a pé, o moinho que admirou, a casa de campo que visitou, tudo isso virou... “de George Washington”.

A única viagem ao exterior feita por Washington, em toda sua vida, frutifica em Barbados. Ele era jovem e acompanhou um primo que buscava bons ares para tratar uma tuberculose. A sua permanência na ilha não durou dois meses, mas são tantas referências que temos a impressão de que foram anos. Como dizia meu avô mineiro: “eles sabem tirar leite de pedra”.

No mercado turístico, histórias e lendas valem tanto quanto palácios e catedrais. “Passos de Anchieta”, criado por Eustáquio Palhares, que se consolidou com base no turismo de inspiração cultural, é um bom exemplo.

Anchieta, um dos homens mais cultos do séc. XVI, jesuíta, professor, cientista, escritor, teatrólogo, poliglota, gramático, humanista, chefe de guerra dos temiminós e beato da Igreja Católica, é uma figura extraordinária da nossa História, pródiga em personagens fascinantes. Ele escolheu o Espírito Santo para seus últimos anos. Na frente da igreja de Vila Velha encenou sua última peça. Quando morreu em Reritiba, 9 de junho de 1597, trouxeram-no para Vila Velha. Seu corpo, lavado no ribeiro cristalino da Cruz do Campo, colocado em rede forrada com folhas de patchuli, foi velado na igreja da Prainha.

Sua obra pode inspirar um Festival de Teatro Anchietano (pioneirismo de Paulo DePaula com a peça Anchieta Depoimento, 1976, Grupo Teatro da Barra), onde peças originais de Anchieta, adaptações e livres interpretações, seriam apresentadas ao público.

Quem visita a Califórnia no outono deve ir até Ashland, que fica ao norte. A vila parece um Oasis no meio de uma paisagem estéril e cinza. Na pracinha, quatro teatros disputam o público: é o Festival Elisabetano (Rainha inglesa contemporânea de Anchieta e Shakespeare). Ele acontece todos os anos, quando várias peças de Shakespeare ou inspiradas nele são encenadas. Ashland é do séc. XX. Shakespeare e Elizabeth não poderiam prever a sua existência. Entretanto a vila americana, pensando nesses ingleses, respira teatro o ano todo.

Anchieta ajudou a civilizar o Brasil; a fundar São Paulo e Rio, é figura nacional. Lembrando de Barbados, nosso andarilho polivalente pode ser um “Washington” versátil, fomentando o turismo capixaba.

Kleber Galvêas, pintor.
www.galveas.com
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