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Livro de cartas de Arthur Rimbaud chega ao Brasil mostrando vida dividida entre amor por Verlaine, genialidade e África
17/12/2009
Miguel Conde
O GLOBO (07/12/2009)
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Num dia de julho de 1873, o poeta Paul Verlaine andava pelas ruas de Londres levando uma rara provisão de comida e a dose costumeira de bebida para a casa onde vivia com Arthur Rimbaud, o jovem talentoso por quem há pouco mais de um ano abandonara a mulher, o filho, o emprego, e de modo geral todos os compromissos que até então faziam dele um integrante respeitável da sociedade parisiense.
Ao se aproximar do número 8 da Great College Street, porém, ouviu o grito sarcástico do amante: “Que ar de babaca, com esse arenque e a garrafa na mão!”.
Seria apenas uma provocação infantil, não fossem as incontáveis punhaladas (metafóricas e literais) já trocadas pelos dois escritores em sua rotina de brigas, bebedeiras e penúria.
Decidido a encerrar o relacionamento que descreveu como “um amor de tigres”, Verlaine embarcou para a Antuérpia. Abandonado, Rimbaud escreveu ao amante uma carta derramada: “Volte, volte, querido amigo, único amigo, volte. Juro que serei bom. Se fui mordaz com você, foi só por besteira e teimosia, arrependo-me mais do que se possa dizer”. Verlaine tinha motivos para duvidar.
Longe de ser uma besteira ocasional, a mordacidade era um hábito cultivado com prazer pelo remetente, como se pode ver no recémlançado “Arthur Rimbaud: Correspondência” (Topbooks, 476 páginas, R$ 59).
Primeira edição brasileira a reunir todas as cartas conhecidas de Rimbaud, o livro traz escritos que vão da adolescência aos últimos dias do poeta, expondo uma vida intensa e atribulada, partida em duas metades: a do jovem brilhante, talentoso e impertinente que entremeava maledicências e trocadilhos escatológicos com poemas hoje contados entre os maiores da literatura moderna; e a do comerciante objetivo que relatava em tom sóbrio suas expedições pela África, onde tentava juntar dinheiro para um dia viver de renda, sem trabalhar.
Cartas queimadas pela mulher de Verlaine
Tradução, notas e comentários são do poeta Ivo Barroso, um rimbaudiano devotado que conclui assim o trabalho de verter para o português as obras completas de Rimbaud, formadas ainda pelos volumes “Poesia completa” e “Prosa poética” lançados também pela Topbooks. Encerrado o trabalho, iniciado em 1972 com a tradução de “Uma estadia no inferno”, Barroso vai doar sua biblioteca de e sobre o poeta para o Centro Cultural Banco do Brasil.
— As cartas mostram que Rimbaud era de uma ironia terrível. Era um cara insuportável, mas um gênio indiscutível. Considero as “Iluminações” o maior momento da poesia de todos os tempos. Minha tese é que depois delas Rimbaud sentiu que não havia nada mais a fazer. Ele era incapaz de se repetir, evoluía a cada poema — diz.
As notas contextualizam as cartas e acabam compondo um breve perfil biográfico do escritor. Algumas poucas cartas escritas por Verlaine, pela mãe e pela irmã de Rimbaud também foram incluídas, assim como os depoimentos de Rimbaud e Verlaine à polícia sobre o episódio em que o primeiro foi baleado pelo segundo.
No conjunto da correspondência, o relacionamento dos dois aparece de forma breve, já que a mulher de Verlaine, Mathilde, destruiu todas as cartas enviadas a seu marido pelo amante. Quando a irmã de Rimbaud as solicitou, Mathilde respondeu: “As cartas dirigidas a Verlaine por seu irmão Rimbaud em nada poderiam servir à glória desse último. Se sua família e seus amigos as tivessem lido, como eu e meu pai, decerto me seriam gratos por havêlas destruído”. Um fragmento de uma carta enviada por Rimbaud queixando-se da modorra em Charleville, sua provinciana cidade natal, da qual fugia sempre que possível, dá uma ideia do tom da correspondência: “O trabalho está mais longe de mim do que minha unha está de meu olho. Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim? Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim!”.
Teoria do poeta vidente, que cria sua linguagem
É em suas primeiras cartas, enviadas a poetas menores com cuja ajuda Rimbaud contava para ter suas obras publicadas, que o jovem escritor discorre sobre sua busca por uma poesia nova. A mais famosa é a enviada a Paul Demeny em maio de 1871, que começa com o aviso imperativo “Resolvi proporcionarlhe uma hora de literatura nova”, e prossegue com a famosa teoria de Rimbaud do poeta como vidente, que por meio do “desregramento de todos os sentidos” “alcança o insabido” e deve inventar uma linguagem para dizê-lo: “A Poesia não marcará mais o ritmo da ação; ela estará na frente”.
Apenas quatro anos depois, aos 21 de idade, Rimbaud deixaria de lado essas ambições para iniciar uma segunda vida e uma série de viagens que o levariam por fim à África.
A vida errante e o trabalho em condições “miseráveis”, como diria mais de uma vez, lhe pareciam melhores do que a permanência na França: “É evidente que não vim aqui para ser feliz. E todavia não posso abandonar essas regiões, agora que já sou conhecido e posso encontrar meios de viver — ao passo que em outra parte eu apenas morreria de fome”. Os pedidos por livros são frequentes, mas tudo que o comerciante procura agora são manuais práticos de construção, geologia, mapas. O talento descritivo e o humor negro ainda aparecem no entanto em várias cartas, como aquela em que Rimbaud descreve à mãe e à irmã sua adaptação às muletas, após ter a perna amputada devido ao câncer nos ossos que terminaria por matá-lo. A doença o levaria afinal de volta à França, de onde saíra para ganhar a vida, e para onde retornou em busca de cura.
“Porque Eu é um outro. (…) Afirmo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente. O Poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; buscar a si, esgotar em si mesmo todos os venenos, a fim de só lhes reter a quintessência. Inefável tortura para a qual se necessita toda a fé, toda a força sobre-humana, e pela qual o poeta se torna o grande enfermo, o grande criminoso, o grande maldito,—e o Sabedor supremo!”
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