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Marc Chagall - O homem que estava lá
28/12/2009
ALEXANDRA MORAES
FOLHA DE SP
Biografia de Marc Chagall, que sai no Brasil, se entrelaça com eventos que definiram a primeira metade do século 20
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Um dos vários autorretratos de Chagall de 1914, quando voltou à Rússia após viver em Paris
Pintor, Marc Chagall parece ter costurado a primeira metade do século 20 com a própria vida. Judeu nascido num assentamento no Império Russo, em 1887, atravessou uma revolução abortada, uma Guerra Mundial, uma revolução bem-sucedida, o antissemitismo que desembocaria no Holocausto, outra Guerra Mundial.
Em 1911, exilou-se naquele que era o epicentro cultural da Europa, Paris, de onde mais tarde sairia para outro exílio, naquele que viria a ser o epicentro cultural da segunda metade do século, Nova York.
A história era muito saborosa para não ser contada. Jackie Wullschlanger, chefe da crítica de arte do “Financial Times”, seguiu a trilha de Chagall, com documentos, cartas e parentes.
Mais do que uma biografia, “Chagall”, editada agora no Brasil, é um passeio por pontos turísticos do século 20. Mais do que panos de fundo da vida de Chagall, esses pontos são suas próprias motivações e reveses.
Pintor se moldou russo, judeu e francês
Identidades do lugar onde nasceu, da origem familiar e do local que escolheu para viver se fundiram na obra de Chagall
Para biógrafa, obra atingiu o auge quando a cidade natal “ainda o embalava (1914-21), mas com a experiência de Paris para desconstruí-la”
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Marc Chagall nasceu em Vitebsk, que atualmente pertence a Belarus. À época de seu nascimento, em 1887, Vitebsk era uma das cidadezinhas judaicas -shtetlech- no Território do Assentamento, área ocidental do Império Russo onde era permitida a residência de judeus.
Ali, Catarina a Grande havia instalado, pouco menos de cem anos antes do nascimento de Chagall, um bolsão para tentar impedir o acesso dos judeus às demais áreas de seu império, uma vez que não se converteriam ao catolicismo ortodoxo russo nem cabiam bem na rígida estratificação social russa.
Proibidos também de morar nas cidades mais importantes da região, como Kiev e Ialta, pequenos comerciantes se instalavam na área que chegou a reunir cerca de 5 milhões de pessoas e sobreviveu até a Revolução Russa, em 1917.
Marc Chagall, porém, travou uma relação de tal modo umbilical com a sua cidade natal que precisava sair dali para enxergá-la direito. “Ele admitiu que era um artista obcecado pela mãe e para quem a cidade natal teve forte importância psicológica e artística”, ressalta a jornalista inglesa Jackie Wullschlager, autora da biografia concluída no ano passado, após oito anos de pesquisa e lançada agora no Brasil.
“Quando terminei a “Life of Hans Christian Andersen” [a vida de Hans Christian Andersen] em 2000, estava pensando, com o fim do século 20, qual figura literária ou artística formaria um prisma ideal através do qual poderia recontar, tanto na vida quanto na arte, os triunfos e horrores do século.”
Chagall, que tinha impressionado a então crítica literária numa exposição na Royal Academy, de Londres, em 1985 -e morrera pouco antes do fim da mostra- apareceu a Wullschlanger a opção ideal.
O pintor viveu clandestinamente em São Petersburgo, encontrou um lar artístico em Paris -e apoio em figuras icônicas da cultura francesa daquele começo de século, como os escritores Blaise Cendrars e Guillaume Apollinaire- e chegou a ser convocado para engrossar as fileiras do Exército para defender o Império Russo, aquele mesmo que o repelia para as franjas de seu território.
“O drama de ser estrangeiro na Rússia e na França fez com que nunca esquecesse sua origem judia. É significativo que seus maiores trabalhos tenham sido produzidos entre 1917-21, quando houve espaço para que os judeus desempenhassem um papel vital e autêntico na vida cultural russa.”
A identidade judaica, ligada à memória de Vitebsk, era indissociável do pintor. “Se eu não fosse judeu, não teria me tornado artista -ou teria sido um outro tipo de artista”, ele mesmo dizia. “A obra de Chagall teve seu auge quando Vitebsk ainda o embalava, de 1914 a 21, mas já com a experiência de Paris -para ter algum distanciamento e adquirir a linguagem formal com a qual desconstruiria Vitebsk”, diz a biógrafa.
El Lissitsky, nome essencial da vanguarda russa, era colega de Chagall nas aulas de pintura. Kandinsky, embora distante, percorria caminhos parecidos.
Chagall adotou e foi adotado pela França. O pintor “se tornou um luminar da arte nacional numa época em que esse país finalmente perdia seu ímpeto cultural diante dos EUA”.
Ao lado das cidades, Chagall inscreve em sua formação três mulheres: Thea, seu primeiro modelo nu, Bella, amor arrebatador e companheira nas costuras pela Europa, morta no exílio americano, e Vava, que o acompanhou até o fim da vida. (ALEXANDRA MORAES)
Autora escreve biografia com habilidade de historiadora
Livro sobre Marc Chagall evita paixões exacerbadas e acerta ao provocar reflexão
TEIXEIRA COELHO ESPECIAL PARA A FOLHA
Ao final da leitura de uma biografia bem-sucedida, pensa-se mais no biografado do que na biografia como forma. Não precisa ser assim, mas parece que a boa biografia é como o bom juiz de futebol: invisível em campo. E, quando sai uma resenha, é comum que resuma a história contada, mais do que fale do livro em si. Destino ingrato, o do biógrafo.
Pensar mais no biografado que na biografia como forma é o que ocorre com a leitura deste “Chagall” por uma autora que dirige a crítica de arte do “Financial Times”, improvável para ler sobre arte, mas onde por vezes se encontra material melhor do que em muito periódico “normal” da área.
Pensar então primeiro em Chagall não impede de notar que o texto de Wullschlager é sólido e atraente. Como escolheu alguém morto há pouco, a autora pôde encontrar-se com uma neta do pintor e com uma ex-mulher, das quais obteve documentos inéditos que dão a seu livro um peso singular.
O prólogo não anima: a autora fala de “um dia abafado de 1943? quando quatro judeus russos se encontram numa sala “claustrofóbica” de Nova York e, “nervosos”, conversam exaltados sobre o nazismo na Europa, suas famílias e a pintura, em meio a “pilhérias”. Como a autora não diz em quê baseia a cena, a impressão é que se lerá mais uma biografia romanceada na qual a fantasia substitui a pesquisa. A autora, claramente, dramatiza. Se continuasse assim, poderia ser um desastre.
Mas em seguida toma o livro com mãos de historiadora e compõe uma narrativa segura e interessante sobre Chagall, a revolução soviética e suas decepções para o artista, o meio cultural de Paris (e seu chauvinismo), Berlim e Nova York , com todos os grandes artistas que fizeram essa época e seu sistema da arte.
Não é raro que o biógrafo se apaixone pelo biografado -e o ponha nas nuvens- ou o odeie -e arrase com ele. Wullschlager, porém, consegue um equilíbrio entre o que achou de elogiável e censurável em Chagall. O livro começa com uma frase curta que explica Chagall e a arte até a década de 1950: “Todo pintor nasce em algum lugar”, disse o artista sobre sua origem russa e judia da qual não se livrou mesmo querendo ser um “artista do Ocidente”.
Nascia. Hoje, o artista não mais depende de um lugar. Nesse arco aloja-se, sem que a autora o diga, toda uma história deste século e meio de arte. (O bom livro faz pensar no que não diz.)
E o resto da narrativa mostra um artista figurativo e romântico sobrevivendo aos “ismos” vanguardistas do século 20 para tornar-se ícone do público, se não dos colegas e da crítica.
Descrevendo o mundo ao redor da arte e as tragédias pessoais do artista, Wullschlager mostra assim, sem dizê-lo, como o estilo mais frequente da história da arte, e que sempre se impõe, é, afinal, o estilo tardio – que, se for bom, é sempre contemporâneo. Se fosse preciso ler as biografias dos artistas para entendê-los, não haveria tempo para ver sua arte.
E alguns, como Chagall, são tão transparentes que suas biografias mais confirmam a compreensão que deles se tem do que a instauram. Mas o livro recorda coisas que é bom ter em mente quando se vê a obra desse artista, na maior parte do tempo, apaixonado e apaixonante.
TEIXEIRA COELHO é escritor e curador do Masp, que fará mostra de Chagall em janeiro.
CHAGALL – VIDA E EXÍLIO
Autor: Jackie Wullschlager
Tradução: Maria Silvia Mourão Netto
Editora: Globo
Quanto: R$ 89 (735 págs.)
(19/12/2009)
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