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Orlando, Virginia Woolf
08/06/2010


Enzo Potel
 
Para alguns, o livro mais atual de Woolf. Para outros, a ovelha negra de sua produção. Entre ambas as opiniões, a certeza de que Orlando é uma fresta notável dentro da obra total da autora. Uma biografia inventada, sorvida e dedicada à existência da Vita Sackville-West, sua andrógina amante.

Virginia conheceu a poetisa, romancista e renomada paisagista Victoria Sackville-West – Vita – em 1919, e logo se tornaram grandes amigas. O envolvimento amoroso ocorreu seis anos depois que se conheceram e durou aproximadamente dois anos (mesmo assim, permaneceram amigas até a morte de Virginia). Vita era casada com Sir Harold Nicolson, também bissexual, e teve com ele um longo e bem-sucedido casamento aberto.

Longo e bem sucedido também foi e é este livro de Virginia, embora a autora tenha ficado apreensiva quanto ao resultado. “Sim, está terminado: Orlando – iniciado em 8 de outubro, como uma brincadeira, e agora longo demais para meu gosto. Pode malograr por ser longo demais para uma brincadeira e maroto demais para um livro sério?”. Em seu mais extenso romance, a seqüência cronológica é respeitada, o fluxo de consciência praticamente abandonado e um novo tipo de exercício posto à prova. Nele, acompanhamos a história do jovem fidalgo andrógino Orlando, que se inicia na era elisabetana e chega até o século XX. No meio deste período, uma onírica troca de sexo transforma o heterossexual Orlando na heterossexual Orlando.

É fascinante quando, depois desta mítica mudança de sexo, Orlando surge pela primeira vez adjetivado no feminino. Se antes Orlando gostava de “sentir-se para sempre, sempre e sempre sozinho”, Orlando agora “era forçada a refletir sobre a sua situação”. Diante desta desconcertante habilidade narrativa, que dá um nó no cérebro do leitor, Virginia desata outras possibilidades: a de falar sobre sexualidade sem tocar em sexo. Alguns dirão que este é o erro do livro, esta superficialidade, se estavam esperando um tratado da natureza humana ao invés de um jogo narrativo. Outros entenderão que a autora procurou simplesmente acompanhar a fluidez de um personagem diante do que lhe ocorreu, mas é no mínimo estranho acreditar que o ego do protagonista não entrou em colapso diante de uma mudança tão extrema.

Porque não é somente a transformação homem/mulher que acontece em Orlando. Antes disso, somos testemunhas da vilania de seus sentimentos ao se apaixonar por uma russa, e do sarcasmo com que é pago pela amizade destinada a um famoso poeta de sua época. Essas decepções deixam, de certa forma, paralítica a vida do protagonista; ele destina a partir de então muitos anos à vida caseira, a seus animais. Numa excelente passagem sobre o ritmo dos anos neste segundo capítulo, Virginia diz que “O tempo passou” completando sabiamente com “e nada aconteceu”. Mais de dez anos depois, mesmo com uma súbita necessidade de socialização e o arranjo de festas intermináveis, quando uma outra mulher aparece diante de Orlando, ecos de gelo e a inutilidade das experiências o fizeram desaparecer mais uma vez.

Se o Orlando homem bebeu o fel dessas paixões, e se pensarmos como Clarice Lispector defendendo que paixão é estagnação (uma terceira perna que nos torna um tripé estável, mas não nos permite avançar), Orlando mulher avança, adquire outro caráter e presencia mais metamorfoses: começa a viver por séculos. Essa particularidade embarca, “com algum rumor e espuma”, pelas águas de inúmeras interpretações – talvez aceitando nenhuma. Seriam necessários séculos até que uma pessoa como Lady Orlando encontrasse o que buscava: um amor verdadeiro? Poderia o livro ser usado como uma metáfora sobre a transexualidade não-marginalizada? Orlando é um terreno perigoso para esse tipo de pergunta, já que a sexualidade em Woolf não possui genitália (o mais próximo que ela chega de relação sexual é usando a expressão “despir as saias e…”). Ora Virginia tenta definir o que há de diferente no Orlando homem e Orlando mulher usando-se somente da personalidade, e sai bem sucedida; ora se embaralha e desiste, mostrando que tudo o que disser sobre a diferença entre os sexos pode ser questionável. E essa despretensão, esse divertir-se em fazer algo completamente novo pelo simples prazer de escrever, é que dá ao livro Orlando toda a sua presença na literatura.

Orlando
Virginia Woolf
trad. Cecília Meireles
Nova Fronteira
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