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Por que ‘Lula’ não emplacou
21/01/2010
Rodrigo Fonseca e Tatiana Farah
O GLOBO
Ingressos caros? Erros no lançamento? Excessiva politização? Uma coisa é certa: Lula, o filho do Brasil não vai fazer nem 1/4 do público previsto
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No mercado cinematográfico, estima-se que “Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto, não passará de 800 mil pagantes, 16% dos 5 milhões previstos inicialmente, por baixo. Essa aposta vem da debandada geral de espectadores das salas, que vão cair das 357 da semana de estreia para 280 na próxima sexta. O Nordeste tem registrado plateias volumosas para o filme, mas, no maior circuito do Recife, a ocupação já caiu para 40%. Entre os analistas de bilheterias uma frase é corrente: “Lula não vai eleger seu sucessor à força de um filme, ao contrário do que alguns setores da opinião pública e da imprensa acreditavam.” Independentemente da hipotética influência dos números no eleitorado, não é preciso recorrer a especialistas para concluir que “Lula, o filho do Brasil” não emplacou, decepcionou frente às previsões. Luiz Carlos Barreto, o Barretão, produtor do longa-metragem, é o primeiro a admitir a abissal discrepância entre as estimativas e a realidade: — Partimos de um piso de expectativa de 5 milhões de espectadores, baseado no desempenho de “2 filhos de Francisco”, cujo comportamento é similar. Mas a politização nos foi nociva: afastou até lulistas. Nossa meta agora é fazer 1 milhão de pagantes. Ela pode ser alcançada se tivermos mais duas ou três semanas com circuito bom.
Sua citação a “2 filhos…” põe por terra a tese de que o preço dos ingressos pode ter afastado os menos favorecidos, que tendem a não frequentar cinemas. Em ambos os casos, o perfil de renda do público-alvo (inclua aí classes C e D) é o mesmo.
Então, por que “Lula”, o filme, ao contrário do presidente, não emplacou? Na visão de Vera Chaia, do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC-SP, os realizadores erraram ao achar que a popularidade do presidente (83% segundo o Ibope de dezembro) conduziria milhões de espectadores ao cinema.
— É difícil levar o brasileiro aos cinemas para ver mais do mesmo.
Existe uma distância grande entre o nível de popularidade, a decisão de ir ao cinema e o filme sensibilizar o público e gerar o boca-a-boca. O público já conhece o Lula da vida real e sua biografia, já acompanhou cinco eleições.
Qual a grande novidade? Os argumentos de Vera, contudo, também esbarram no paradigma de “2 filhos de Francisco”: o público já conhece Zezé de Camargo e Luciano, seus discos, sua história; tem baixa renda; e, no entanto, correu em enxurrada aos cinemas, comprando 5,3 milhões de ingressos. O próprio Barretão, num misto de crítica e de autocrítica, dá pistas.
— Cerca de 600 mil espectadores já viram “Lula” desde a estreia. É esse público que desmanchou a resistência política que sofremos. É graças a eles que, em quase todas as sessões, o filme termina sendo aplaudido. Alguns amigos estrangeiros já nos disseram: “Vocês deveriam ter expandido o filme um pouco para além do fim. Deveriam ter feito um clipe com a evolução política dele”.
Mas era isso que tentamos evitar! Não queríamos politizar o filme. E por conta dessa decisão o PT ficou puto. Não falamos deles. Não desejávamos falar de partidos, queríamos um filme para toda a família. Mas depois do Festival de Brasília, o discurso de politização, para contextualizá-lo como propaganda política, coisa que não é, fez o filme deixar de ser uma atração familiar. Estrear em Brasília (o filme passou na abertura da mostra brasiliense, no dia 17 de novembro de 2009, ou seja, 44 dias antes de sua estreia em circuito) foi um erro — admite Barretão. — Outro erro: subestimamos “Avatar”. Em agosto, quando vimos uma sessão prévia de 15 minutos dele, tivemos a impressão de que não seria essa coisa toda. Depois da estreia, vimos que “Avatar” não seria moleza. E ainda temos a concorrência de “Sherlock Holmes” e “Alvin e os esquilos 2”.
Distribuidor acusa aliados
Na avaliação de Bruno Wainer, distribuidor da Downtown Filmes, o erro fatal foi o filme ter aberto o Festival de Brasília.
— Ali, todo mundo que estava esperando para bater, bateu.
Foram 40 dias de massacre. Os debates não falavam do filme, e sim sobre as empresas que investiram nele. A oposição atacou. Era o papel dela. Mas a esquerda calou. O papelão foi dos aliados — acusa.
Mas será que o espectador, afeito ou não a Lula, que foi aos cinemas à procura de emoção na trajetória de um personagem tão carismático, reconheceu sua figura nas telas? Amigos do presidente que participaram do prélançamento do longa, em São Bernardo do Campo, já haviam dito que não: Lula na vida real é emoção, abraça as pessoas, mistura-se ao suor do povo; o Lula do filme passaria uma certa frieza.
Outros criticam, com exceção do início, a ausência de um retrato mais fiel do ambiente de miséria, de pobreza extrema, que o cercou.
Há quem só veja qualidades.
— As pessoas podem achar que o filme é propaganda, mas isso é um engano. É uma história de vida — elogia o gari Jovenildo Matos, um baiano de 47 anos que vive há 14 em São Paulo.
Há a hipótese do tema. Dono da Rede Araújo de Cinemas, o paulista Marcos Araújo vetou o filme em seus 80 cinemas por questões “estritamente comerciais”. Para ele, filmes sobre políticos não rendem. Ele usou como termômetro o número de conteúdos baixados na Internet sobre o lançamento, segundo ele muito baixo. A pesquisa serviu para que descartasse o longa até nos cinemas de Campo Limpo, na periferia de São Paulo, e Mauá, no ABC Paulista, reduto petista.
— Popularidade e interesse pelo filme não têm relação.
Poderia ser a história de Obama.
Não rende. Eu estava certo e os outros (cinemas) errados. Este filme não chegará aos 700 mil — sacramenta o empresário.
Araújo critica também a data escolhida, 1 de janeiro, época de férias escolares.
— Quem procura esses filmes são pessoas mais velhas. Janeiro é para crianças e jovens. Eles tinham tanta certeza do sucesso que acharam que poderiam lançar em qualquer época.
Diretor do site Filme B, que vistoria o mercado, Paulo Sérgio Almeida reitera a tese da nãotransferência de popularidade, mas refuta o termo “fracasso”: — Nenhum filme brasileiro que possa fazer entre 800 mil e 1 milhão pode ser chamado de fracasso. É impossível avaliar o que um produto pode fazer fora do seu meio natural. A lógica é assim: o Flamengo tem, segundo o Ibope, 35 milhões de espectadores. Nada me garante que um filme sobre o Flamengo será visto por 35 milhões de pessoas. Nenhum filme sobre o Flamengo fez o público que se esperava, assim como filmes sobre o Zico, Pelé ou a Seleção . Não se transfere o público dos estádios para os cinemas com igual proporção. Com a política, a lógica é igual: o número de eleitores de um político não necessariamente será o público de um filme sobre ele.
Uma expressão já corre certeira nas análises da produção: contas no vermelho. Quem faz o cálculo é Paula Barreto, filha de Luiz Carlos e também produtora do filme.
— Mesmo que alcance 1 milhão, teremos prejuízo. Nosso orçamento foi de R$ 12 milhões de produção e mais R$ 4 de lançamento. Nosso erro, quando percebemos que a discussão política havia ofuscado a imagem de “filme-família”, foi não ter adiado seu lançamento.
Deveríamos tê-lo lançado em abril, maio. Aí, a polêmica política teria se diluído.
Não queríamos politizar o filme.
O PT ficou puto.
Não falamos deles. Queríamos um filme para toda a família.
Luiz Carlos Barreto, produtor
Nenhum filme sobre o Flamengo fez o público que se esperava, assim como filmes sobre o Zico, Pelé ou a Seleção
Paulo S. Almeida, Filme B
COLABOROU Letícia Lins
17/01/2010
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