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Rabiscos ao vento: Mundo regulado
20/07/2010


Tarcísio Bahia
 
 
Creio que alguns de vocês devem ter lido ou visto alguma reportagem sobre uma exposição recentemente inaugurada em Nova Iorque sobre Pablo Picasso. Segundo disseram é um evento imperdível, ou seja, vale a pena comprar o bilhete aéreo ida-e-volta só para vê-la. Trata-se, é claro, de algo que não pode ser realizado por grande parte de nós brasileiros (uma pena!), mas felizes daqueles que poderão disfrutar da emoção em contemplar mais uma retrospectiva deste genial artista. Apesar de não ser um dos felizardos que verão a exposição, não posso me queixar, afinal já tive o privilégio de estar diante de várias de suas obras mais importantes e que cobriam os vários estilos que ele “enfrentou”.

E é essa justamente a questão que para mim sobressai em relação ao espanhol: o enfrentamento traduzido numa transitoriedade estilística inquieta. Enquanto vários outros renomados artistas foram fiéis a um único estilo ao longo de toda uma vida, numa crença quase cega a um determinado modo de interpretar a realidade por meio da arte, Picasso mostrou-se totalmente eclético. Engajava-se num estilo com maestria, mas logo esgotava toda linguagem que dele podia extrair e abandonava-o “pulando a cerca para uma nova aventura” (quem conhece um pouco a biografia do espanhol sabe que não foi só em relação a arte que ele foi infiel, mas isso é outra história).



Apesar de existir desde o Império Romano, o Direito (que tem em sua essência fazer justiça na terra antecipando-se ao julgamento divino) não foi capaz nem de aperfeiçoar a humanidade nem de evitar a barbárie. Mal necessário, precisamos de leis para regular o comportamento humano pois não basta o senso comum para distinguir o certo do errado. O problema é que cada dia surgem mais leis, numa tentativa (frustada) de estabelecimento de um pacto civilizatório.

E como tampouco é possível um Estado capaz de fiscalizar onipresentemente o cumprimento das leis, propõe-se uma sociedade em constante patrulhamento, num processo de enrijecimento comportamental: o tal grande irmão de Orwell. Todo mundo vigiando todo mundo.

E, sinceramente, é um saco tudo isso! Acho que nem o maior dos computadores é capaz de armazenar todas as leis existentes (e olha que quando digo isso penso apenas em termos locais; mas o pior é que pela própria lei ninguém pode argumentar o desconhecimento do artigo X, inciso Y para justificar ter feito algo errado).

Acabo dizendo o óbvio: leis não impedem os salafrários de agir, mas atrapalha muito aqueles que pretendem agir honestamente. E, num círculo vicioso, como a cada dia surge algum golpe novo, tome nova lei em cima.
robertobeling.com
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