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Jaceguay Lins
03/02/2010
O LIVRO DOS AFORISMAS DE ENOCH



“GENÊSE”

De um a dez
Tece-se a memória
Do Mundo.
Vinte e dois verbos
conjugam a matéria.
Tudo é vivo.
Tudo é forma.
Tudo é sujeito de transformação.
A pedra,
De que se diz inerte,
Em seu silêncio,
Crepita ao fogo e água
E ao atrito da cunha,
Abrindo ao mundo
Veias de entranhas.





“DO SIGNO DOS GÊMEOS”

A incompreensão
Atesta a solidão.
O quaternário só existe
Na escada
Porque degraus há:
Um primeiro,
Um segundo
E um terceiro.

O caracol umedece o seu caminho
E prateada,
No mundo,
É sua trilha.
O orvalho que alimenta a Primavera
Responde ao Sol
Que aquece a madrugada.
A estrada seca,
acidentada,
íngreme,
percorre o brilho
do meio-dia dourado.





“DA EXISTÊNCIA”

Ninguém compreende o mundo
Sem mudar o mundo.
Muita é a eternidade.
E não há forma de se ser
o Todo,
sendo-se, apenas,
parte,
para sempre.





“DA BELEZA”

Tudo é belo.
O bizarro é lindo.
O feio é lindo.
O horrível alimenta
A semente da beleza.
A beleza manifesta-se
Em tudo.

Por isto,
o Todo é belo.
Feliz é o poeta.
Porque mesmo as suas queixas
Revestem-se de beleza.





“DAS CORES”

A trajetória das coisas
no espaço
permanentemente
colorida.
E assim como o Sol
aquece a vida,
a Lua embala
a mãe da vida.
Não há dia isento de noite.
e nunca ocorre noite isenta de dia.
Triste é quem não vê
a cor no seu caminho.
Porque são coloridas
todas as janelas
e o vazio das portas
é colorido.





“DA INTELIGÊNCIA”

Tudo é intelecto.
O imaginário é o ventre da vida.
Assim como a matéria caminha
e se energiza,
E o vento transporta o pólen
de um Continente para outro,

também a mente se transmuta,
ainda que muito longa
seja a caminhada.
Feliz é o cavaleiro do alazão de prata,
em cujas rédeas incrustam-se esmeraldas.
A inteligência tudo cria
e consome.
Pois da consciência
a inteligência se alimenta.





“DA POLÍTICA”

A trajetória do sábio
espelha o astro,
espelha a Lua.
Triste é aquele
que não sabe
que é eterno.
Culpa-se de culpas
que o Todo não reclama;
sofre por ser fraco
e não se aglutina.
Afortunada
em número de vinte e duas vezes
é a cidade
que fala pela boca do seu povo.
Sua muralha
tem esquadro e prumo.
E o seu ar é puro
e é de incenso.





O LIVRO DAS NOVAS LEIS
...........................
“A primeira nova Lei”
Toda individualidade conterá o Todo.
........................
“A segunda nova Lei”
A igualdade expressará as diferenças.
.............................
“A terceira nova Lei”
Ninguém nada será mais do que todos.
..........................................
“A quarta nova Lei”
A regência de tudo será o transitório.
..........................................
“A quinta nova Lei”
Tudo é incerteza.





FONTE: O Segundo Livro de Enoch
Massao Ohno Editor, São Paulo/SP, 1991.



Foto Recente de Jaceguay (FONTE: SÈCULO DIÁRIO)


(*) Dados Biográficos:

“Compositor, maestro e poeta, Jaceguay Lins, nasceu em Canhotinho (PE), em 1947. Após residir no Rio de Janeiro, nos anos 60 e 70, onde foi professor na Escola de Música Villa-Lobos, radicou-se no Espírito Santo, no início da década de 80. Por aqui, contribuiu para a cultura local em diversas áreas, sobretudo como regente da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo (Ofes) e na revitalização e divulgação do congo capixaba. Lins teve trabalhos premiados mundialmente, como “Ave Palavra”, de 1979, que representou o país na IV bienal de Música contemporânea, na Alemanha, e “Katemare”, de 1970, para canto, viola e percussão, apresentada na I Tribuna Nacional de Compositores, representante do Brasil na Tribuna Internacional de Compositores da Unesco, em Paris, em 1971..... Morreu, em 17 de agosto de 2004, devido a complicações resultantes de um câncer na garganta.....” (A Gazeta,26/11/09).

Vale registrar que a revitalização do congo não pode ser dissociada da criação da “Banda II”, no início dos anos 80, projeto desenvolvido a partir da então Sub-Reitoria Comunitária da UFES. A partir de então a história do congo mudaria radicalmente e criando a identidade de bandas como Casaca e Manimal.

Cinco anos após sua morte, por ocasião da realização em Vitória do XIV Congresso Brasileiro de Folclore, foi lançado o livro “O Congo do Espírito Santo: uma panorâmica musicológica das bandas de congo”

Os poemas aqui postados foram extraídos da obra “O segundo livro de Enoch”, cuja 2º edição foi lançada por Massao Ohno Editor, com prefácio de Carlos Nejar.
 
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