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Armstrong redescoberto
05/01/2010

Lúcia Guimarães, NOVA YORK

ESTADO DE SP (03/01/2010)

Após consulta a centenas de depoimentos inéditos do trompetista e cantor, o crítico Terry Teachout revela em livro fatos sobre sua vida e carreira

No fim da década que trouxe grande fama a desocupados e enriqueceu uma elite financeira à base de ficção econômica, nada como voltar a um personagem que foi famoso porque era genial e milionário porque passava 300 dias por ano dando duro na estrada. Uma surpresa editorial do fim deste annus horribilis para a mídia americana foi o sucesso da biografia Pops: A Life of
Louis Armstrong, de Terry Teachout, que dispensou o conhecido Satchmo porque Pops era o apelido preferido pela primeira grande celebridade do jazz.



Se você se lembra só de Hello Dolly na voz que sugeria “um barril rolando numa rua de pedras”, esta biografia vai lhe provocar um desejo irresistível de rechear a sua playlist com clássicos da década de 20. Se você é jazzófilo intransigente e nunca perdoou Armstrong pelo que Dizzy Gillespie chamava de “subserviência de Uncle Tom”, este livro vai despertar desejo semelhante e, de quebra, a vontade de ouvir Hello Dolly com tolerância e prazer.

Louis Armstrong foi o primeiro músico influente da história da única arte nativa americana. Nasceu pobre, em 1901, foi abandonado pelo pai e passou parte da infância catando lixo, enquanto a mãe prostituta caminhava pela Perdido Street, em New Orleans. Ele tinha tudo para virar uma estatística trágica do sul racista – foi preso aos 11 anos por dar um tiro na noite do ano-novo -, mas o destino interrompeu a trajetória quando ele, internado num reformatório, descobriu uma corneta. Antes dos 21 anos, Armstrong já estava plantado numa das melhores bandas de jazz do país, em Chicago.

Nesta entrevista exclusiva ao Estado, Teachout considera preconceituosa e surda a hostilidade crítica sofrida pelo imensamente popular Armstrong nos anos finais da carreira. Apesar da paixão com que defende Louis Armstrong, Teachout cobre todo o terreno de suas escolhas menos felizes: músicos sofríveis, repertório irregular e uma postura quase caricata, olhos arregalados e sorriso permanente, que virava o estômago do establishment negro. Uma elite que não lhe perdoou ter cedido o controle da carreira ao agente Joe Glaser, com suas ligações com a Máfia. Glaser não só afastou o bafo dos gângsteres de Chicago do cangote de Armstrong mas foi o estrategista da primeira carreira popular do jazz. “Toque para o público”, aconselhou ao cliente. “Cante e toque e sorria.”

Mas mesmo quando fazia concessões, argumenta o autor, Armstrong revelava o talento de pioneiro que inspirou gerações de músicos, de Billie Holiday a Wynton Marsalis. Terry Teachout é o autor de duas outras celebradas biografias, de Georges Balanchine e H.L.Mencken, e bloga diariamente no site About Last Night, um dos primeiros blogs culturais da era online. Foi músico profissional e hoje é o crítico de teatro do Wall Street Journal. Em julho passado, seu libreto para A Carta, baseado no livro de Somerset Maugham, estreou com a Santa Fe Opera, numa parceria com o compositor Paul Moravec. Diante de tanta atividade, não me surpreendo quando abro a porta e o autor de Pops passa correndo brandindo um barbeador. A turnê do livro desafia cada minuto de seu dia. Agora barbeado, Teachout se lança à vida de Pops como quem toca de ouvido.


Você vê a reação inesperada ao livro, um sucesso raro para uma biografia de jazz, como uma reparação pelo fato de Louis Armstrong ter sido esnobado pelo establishment do jazz no fim da carreira?

Acredito que não, porque ele ainda é uma figura muito popular no país. Não é popular como uma estrela de rock, mas assumiu o status de ícone não só da música americana como também da nossa história. Há uma grande reserva de boa vontade com ele. E, de fato, a minha biografia deve ter recebido impulso por ter vindo depois da série Jazz do Ken Burns, que deu a ele grande destaque. E também da programação que Wynton Marsalis faz no Jazz at Lincoln Center. Mas, houve, sim, após a morte de Armstrong, em 1971, o período de eclipse póstumo que não é raro acontecer com artistas. A partir dos anos 80, começou a reaparecer a consciência da importância dele, mas o material biográfico disponível não preenchia certas lacunas.

Você foi o primeiro pesquisador a ter acesso às centenas de horas de gravação que estavam guardadas no sótão da casa de Armstrong no Queens. Por que esperaram tanto para consultar o material?

Todo mundo sabia da existência das fitas, mas imaginava que elas estavam imprestáveis porque haviam passado tanto tempo num espaço úmido sem nenhum cuidado. O fato é que estavam em perfeitas condições. O Arquivo Armstrong do Queens College passou anos tratando da conservação e transferiu tudo para formato digital. Assim que acabou o trabalho, eu apareci por lá. Simplesmente dei uma sorte incrível de ser o primeiro biógrafo a escutar as gravações. Louis Armstrong foi um dos primeiros americanos a comprar um gravador. Comprou um em 1947, na mesma época em que seu amigo Bing Crosby comprou o dele. A intenção inicial era gravar os shows para escutar depois e aperfeiçoar as performances ao vivo. Depois ele gravou também toda sua coleção de discos, porque passava 300 dias por ano em turnê. Em seguida, ele começou a gravar as conversas com todo tipo de gente e até depoimentos na primeira pessoa, pequenos flagrantes biográficos. Quando morreu, em 1971, tinha acumulado 650 horas de gravação. Então graças a essas fitas eu pude montar a biografia com um conhecimento sem precedentes do Armstrong privado. Foi diferente do que conversar com quem o conhecia, ler o que ele escreveu ou que se escreveu sobre ele. Nas gravações a gente descobre que, apesar de ser essencialmente um sujeito adorável, ele tinha uma personalidade mais cortante, era capaz de guardar ressentimentos. Sabíamos que ele tinha pavio curto, mas o tipo de linguagem que ouvi, sem censura, me surpreendeu.



Gênio natural e incompreendido

Armstrong foi acusado, até por grandes contemporâneos como Miles Davis e Dizzy Gillespie, de ser um “Uncle Tom”, um negro subserviente. Atribuíam a ele uma certa tolerância e vontade de agradar, incompatíveis com o período que precedeu o movimento de direitos civis

Bem, houve um pouco de razão e também um erro. Ele foi um otimista até morrer. Numa das últimas cartas que escreveu a um amigo próximo, diz que sua vida tinha sido feliz e que basicamente amava as pessoas. E não estava forjando uma imagem para a imprensa. Ele conseguia se sentir otimista, mesmo tendo vivido os horrores enfrentados pelos negros desde a sua juventude em New Orleans até boa parte da década de 60. Ele podia ser um realista, sentir grande indignação e eu ouvi sua voz admitindo a realidade. O assunto das fitas privadas não é predominantemente raça, há de tudo ali. A gente descobre uma personalidade muito mais complexa. Para mim, foi como entrar num túnel do tempo. Não tenho idade para ter assistido a Armstrong ao vivo. Mesmo já sabendo muito sobre ele e tendo conversado com gente que o conhecia, foi extraordinária a experiência de escutar conversas como a de um jantar, quando ele conta em detalhes as encrencas com os gângsteres de Chicago e vai revelando todos os nomes. Ou momentos num camarim, quando ele fuma um baseado com o ator Stepin Fetchit e relembra os bons tempos de Hollywood. Até no quarto de hotel com a mulher ele deixava gravando. Dá para ouvir quando ela evita o marido – “É tarde demais!”; e quando percebe que o gravador está ligado, ela grita: “Desliga isto e apaga a fita!” A resposta do Armstrong? “Não, isto fica para a posteridade.” E eu estou ali, meio século depois, de fones de ouvido numa sala de biblioteca, incrédulo com a chegada da posteridade.

Quem conheceu principalmente o Armstrong de Hello Dolly e outros sucessos populares não imagina a sua curiosidade musical.

Foi muito importante destacar o espectro amplo do mundo musical de Armstrong. O primeiro artista influente do jazz foi fortemente influenciado por ópera, por cantores como Enrico Caruso. Ele ouvia ópera regularmente. Pouca gente sabia que ele gostava de música country e que, em 1931, gravou com um grande cantor desse gênero, o Jimmy Rogers. Ele ouvia e gostava dos Beatles. Apesar de dizer que não era fã de bebop, colecionava discos de Gerry Mulligan e Stan Kenton. Ele tinha educação musical, lia partituras como poucos. Para se aquecer antes de um show, tocava o Intermezzo da Cavalleria Rusticana. Ele era um gênio natural, não um gênio primitivo. Além de entender como ele era eclético, é preciso notar a enorme variedade de seus admiradores. Entre os grandes fãs e colecionadores dos discos de Armstrong estavam o poeta Philip Larkin, o arquiteto Le Corbusier, o pintor Jackson Pollock. Eu quis estabelecer a importância dele na cultura do século 20. O lugar de destaque que ele ocupa não é apenas como jazzista, mas como um gigante do modernismo. Afinal, o jazz é um importante elemento do modernismo na arte.

O que você ouviu, nas fitas, sobre as filmagens de High Society, com Bing Crosby, Frank Sinatra e Grace Kelly?

Ouvi uma história engraçada. Ele gravou uma fita – mandava cartas gravadas para os amigos – depois que a filmagem acabou. Ele adorou a experiência, conta que se divertiu muito, mas tinha ficado espantado com Crosby e Grace Kelly. Ele diz que eles se comportavam como se aquilo tudo fosse real. Morri de rir quando ouvi isto porque, você sabe, os dois tinham acabado de ter um caso!

E ele não se sentiu esnobado por fazer um papel pequeno?

Não encontrei nada a respeito e não acho que tenha sido o caso. Afinal, ele teve um pequeno papel num dos maiores sucessos de bilheteria de 1956. Ele abre e fecha o filme. Armstrong não era de ficar choramingando com o que não recebia. Ele era mestre em extrair o melhor de uma situação. E afinal, quando ele aparece no filme, rouba a cena.

Durante uma carreira que durou mais de cinco décadas, qual é o momento exato em que ele deixa de ser apenas mais um entre tantos músicos de New Orleans e se transforma no grande artista?

Musicalmente, ele amadurece em torno de 1928, nas gravações com Earl Hines. Mas como personagem público, ele se firma mais tarde. Armstrong estreou na Broadway em 1929, cantando Ain”t Misbehavin. Foi a primeira vez que um público maior tomou conhecimento dele. O momento-chave, quando ele é recebido como uma estrela, é 1936, quando filmou Pennies From Heaven, com Bing Crosby. Eu não sabia disso e só entendi lendo a imprensa popular da época. Achava que ele tinha ficado famoso quando se tornou um músico genial. Mas o público só se apaixonou quando ele foi para Hollywood. Quando ele fez Pennies From Heaven, Bing Crosby era um dos produtores e impôs, como condição, não só contracenar com Armstrong, mas também que o nome dele aparecesse com o mesmo destaque. Era a primeira vez que um negro tinha o nome acima do título de uma produção de elenco branco em Hollywood. E Armstrong entendia perfeitamente o que isso queria dizer. Anos depois, o historiador Leonard Feather pediu a ele para enumerar os grande momentos da carreira. Ele começou não com a gravação de West End Blues ou a performance de Ain”t Misbehavin. O primeiro destaque para ele foi apresentar um show na NBC em 1935. O segundo foi a chegada a Hollywood. E por quê? Foram os eventos que o apresentaram a um público muito além da restrita audiência do jazz e o transformaram numa instituição pública.

Não há paralelo entre a relação dele com o público e a de outros grandes músicos do jazz, certo?

Não, e a explicação está no fato de que ele cantava. Ele foi o primeiro grande jazzista cuja voz o público reconhecia. Foi influente como cantor e influente como instrumentista. E vale lembrar que, para muitos, ele foi o primeiro músico de jazz que ouviram, nos anos 20. Naquela época, jazz era uma música estranha, moderna, instrumental. Era, de certa forma, música abstrata. O público não conseguia definir o que ouvia. Ficava entusiasmado, mas confuso. Aí chega este cara que toca trompete como um endiabrado, mas também canta de maneira calorosa. Ele atinge as pessoas, superando a frieza da gravação, quase puxa o ouvinte para dentro da caixa de som. E somamos a tudo isso o fato de que ele era o entertainer por excelência. Não tinha a menor vergonha de entreter o público. Este personagem traz para o jazz gente que não teria prestado atenção ao gênero. E vamos deixar claro que Armstrong ainda seria igualmente importante mesmo que não tivesse cantado uma nota sequer. Por ter sido, além de grande músico, um grande entertainer, ele foi um dos maiores responsáveis pela aceitação do jazz entre as massas. Isto faz como que a importância histórica de Armstrong supere a importância de seu gênio inegável.

Como você vê hoje os altos e baixos da carreira de Armstrong, especialmente os seus anos finais, em que houve um racha entre a reputação crítica e a popular?

Armstrong continuou se apresentando com grande vigor até durante boa parte dos anos 60. Mas o gosto havia mudado no período depois da Segunda Guerra. Houve a emergência do bebop e, embora ele tenha molhado os pés no jazz moderno, não era o que queria fazer. Ele voltou a se apresentar com um grupo pequeno, em 1947; o grupo tocava o que hoje chamamos de Dixieland mas, na verdade, era muito mais sofisticado e interessante do que o rótulo. E ele começou a ser visto como fora de moda na década de 50. As pessoas não conseguiam entender porque ele não aderia ao bebop, nem compreendiam quanto ele tocava bem. Para piorar, a atitude dele no palco mortificava um certo público jovem. Eles não conheciam o gênio musical dos anos 20 e 30 e sim o cara bonzinho que aparecia no Ed Sullivan Show e outros programas de variedades. Ao longo da pesquisa do livro, eu me dei conta de que muita gente ainda resiste, não consegue apreciar a importância extraordinária que ele teve. Ele foi um artista maravilhoso e significativo nos anos 50 e 60, não só nas décadas anteriores.

Seria justo compará-lo aos pintores figurativos da década de 50, que sofreram o ostracismo por causa da explosão do expressionismo abstrato? A ironia é que ele havia dominado a abstração primordial do jazz.

Não tinha pensado nisso, mas essa é uma boa metáfora. É quase como se ele fosse um Edward Hopper do jazz. O problema é que a moda mudou e ele não mudou junto. Mas se manteve muito, muito popular. Os maiores sucessos populares dele foram nos anos 50 e 60, com Hello Dolly e Mack the Knife. Você sabe, o mundo ainda está cheio de gente que considera a popularidade um sinal da pobreza do artista.
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