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Data: 22/06/2010
O Terceiro Reich
Autor: ROBERTO BOLAÑO

Há uma iniludível fantasmagoria, uma progressiva concentração – de personagens, de situações, de espaços – ao longo de O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño. A narração é feita na primeira pessoa – uma estratégia de escrita que poderia fazer emperrar o romance, ou deixá-lo demasiado preso a uma técnica, mas de que o autor se desembaraça com notável desenvoltura. O correr da obra acaba por boicotar esse esquema inicial – através da interferência de tempos que se vão pondo em causa, por um certo desarranjo do esquema narrativo –, atravessada como está por um paradoxo.

O registo diarístico, que começa por pressupor uma anotação rente ao tempo do discurso – «Enquanto esperava, li as primeiras páginas deste diário, não estavam mal, sobretudo para um principiante.» (p. 18) –, e que se adequa em função dessa contiguidade, começa a ser insidiosamente inviabilizado pela noção, que o leitor vai ganhando, de que as bases que sustentavam esse quadro mental e diegético são mais frágeis do que pareciam – «Quando é que tudo aquilo ia terminar? (ainda agora não sei o significado desta pergunta).» (p. 313) –, são mais assustadoras do que poderiam fazer supor – «soube que ali estava o perigo e a morte» (p. 77). Um entrechoque subtilmente dado, por exemplo, com determinadas recorrências metafóricas – ao «polvo dos nervos» (p. 316) são homólogos os «tentáculos de fumo» (p. 225), numa sinistra zoologia sombriamente indiciadora de uma perdição em cujas membranas se perde a narrativa e se perderão as personagens.

Criadora da tensão fundadora deste romance é a situação narrativa gerada em O Terceiro Reich. Udo Berger regressa à costa catalã, o local de férias da sua adolescência, dez anos antes do tempo da acção do romance. O espaço eleito é como uma cidade-fantasma – «A recordação que guardamos dos turistas é diferente da recordação das pessoas normais. São como bocados de filmes, não filmes não, fotografias, retratos, milhares de retratos e todos vazios.» (p. 211) –, com seus espectros, vogando, lívidos à chegada, tostados à partida para as suas terras de origem. O próprio hotel, de resto, parece suspenso, em tempo indeterminado, em lugar incerto, ainda que localizado, como sob feitiço de uma névoa entorpecedora – «pensando bem e resumindo, todos nós éramos como fantasmas que pertenciam a um Estado-Maior fantasma a exercitar-se continuamente sobre tabuleiros de wargames» (p. 341).

Está em jogo como que uma tentativa de reescrita da História. Udo participa num jogo de guerra (fixado numa releitura da Segunda Guerra Mundial), tentando inverter os sinais do confronto em favor da Alemanha – num jogo sintomaticamente chamado Terceiro Reich. Uma reelaboração grafada com a dura neutralidade de um falso documentalista – «A História, geralmente, é uma coisa sangrenta» (p. 284) E as tropelias por que o protagonista passa, quando sobre ele cair a suspeita de nazismo, são a cortina de fumo perfeita, no despiste do leitor, na desorientação que sobrevém, por entre a busca de uma cifra que nunca surgirá, à medida que se esboroa a sanidade de Udo e se esfacela a pouca coerência deste sedicioso jogador. Afinal, tudo se passa dentro de um sonho, dentro da sua cabeça. Mas o espectro está lá, ainda que na sua mente.

Se o propósito de Udo seria compor uma espécie de moratória para os embates finais do jogo, um período de veraneio propício à escrita e às suas reflexões estratégicas – «O meu amigo espera. Os livros que prometi a mim próprio ler esperam. As horas e os dias, em compensação, passam à pressa, como se o tempo fosse pela encosta abaixo. Mas isso é impossível.» (p. 148) –, a personagem desce, cada vez mais fundo, uma vala aberta fundo na sua cabeça, no seu desespero viciado – «de dia para dia estás mais pálido, como se estivesses em processo de te converter no Homem Invisível» (p. 309). Udo vai, de resto, ficando progressivamente só. De uma das suas bravatas, Charly morre, após o que a sua namorada, Hannah, partirá para a Alemanha. Ingeborg deixará, também ela, Udo, que persiste na sua irracional demanda dos jogos de tabuleiro. Alimenta-se da miragem de Frau Else, paixão da sua meninice: significativamente uma espécie de imagem em negativo, como uma figura espelhada no fundo de um poço. Queimado (nome de uma personagem) é, por fim, quem lhe resta, tão alheio como Udo ao conforto e ao espraiado veraneio expectáveis em tais paragens. E será ele alvo de uma espécie de transferência espectral de Udo: com «uma geometria precisa e demente» (p. 270), também ele se enleará nos encantos baços do jogo – «A sua obstinação é uma espécie de prisão.» (id.)

Esta invenção verbal, com a sua narrativa seca, de estilo raso, engendra efeitos sub-reptícios, que assomam no corpo do texto, como fissuras numa superfície seca. Os momentos de dispersão, de invasão do insólito, mormente por via do sonho, são sagazmente inseridos na narrativa – de tal forma cerzidos, que o entrelaçar de motivos reais e feéricos deixa o romance à beira de se precipitar no abismo sem nunca cair. Os pesadelos de Udo, sombrios separadores da narrativa, funcionam como poderosas alavancas do romance, antecipando o desenlace, fornecendo falsas pistas, como sinais de fumo num horizonte despido. O precipitar de acontecimentos com que parece fenecer o romance é como que o estertor de um cadáver adiado. Udo sobreviver-se-á, espécie de toxicómano em esfiapada recuperação, fantasma de si mesmo, sobrevivente de um mundo em ruínas, simbolizado, como num assustador teatro de sombras, nos avanços e retrocessos do Terceiro Reich.

O Terceiro Reich
Roberto Bolaño
trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Quetzal
2010
robertobeling.com
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