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1 – Como foi a descoberta da literatura e do cinema na sua vida?
Erly: Começa com uma vontade de escrever – que acho todo mundo tem no final da adolescência,
mas antes me percebi como espectador e leitor. Quando entrei na Ufes, peguei uma daquelas
greves de três meses, tinha muito tempo livre, então fiquei sócio da biblioteca da FAFI. Li
muita coisa de Borges (Jorge Luis Borges), Cortázar (Julio Cortázar) e Calvino, lia uns dois
livros por dia, e me perguntava: então literatura pode ser isso? E ainda me sobrava tempo para
ver filmes. Daí descobri o Metrópolis e outras linguagens de cinema, que eu não estava
acostumado, e fiquei impressionado, e me perguntando também: então cinema pode ser isso?
Assisti ainda a Mostras que aconteciam na FAFI, de cinema francês, alemão e japonês, que foram
importantes pra mim.
A oficina que fiz com Valdo Motta, que freqüentei como ouvinte, ali acho que nasci como
escritor, e daí surgiu a primeira publicação que foi uma coletânea com patrocínio da Prefeitura
de Vitória, também juntamos um pessoal e fazíamos recitais.
E da mesma forma que da vontade de ler veio a vontade de escrever, da vontade de ver filmes
veio a vontade de trabalhar com filmes. Em 1997, participei de um curso que o Governo do
Estado fez de realização cinematográfica, e o trabalho final era um curta em 16mm. Esse curso
serviu pra juntar um monte de gente interessada em fazer cinema. Em 1998, o Vitória Cine Vídeo
abriu um concurso de roteiro e eu o ganhei, e o pessoal que havia feito o curso comigo
trabalhou junto novamente no Macabéia.
2 - Como surgiu o roteiro de Macabéia?
Erly: Na angústia de escrever o roteiro, lá estava eu subindo a ladeira da casa da minha
mãe – em Maruípe, quando inesperadamente uma Kombi veio na minha direção, e a primeira
reação foi me jogar no primeiro muro chapiscado – eu tinha ganho uma fitinha do senhor do
Bomfim e supersticioso que sou – quando sai do muro a fitinha caiu, e ao invés de pensar
“acabei de escapar de um atropelamento”, pensei: “onde encontrar água corrente para jogar e
completar a simpatia e o meu desejo se realizar, daí pensei: “to parecendo a Macabéa da
Clarice”, e veio o insight.
Comecei a pensar em como seriam as macabéas de hoje? Pensei em vitória final dos anos 90:
elas provavelmente teriam 2º grau, saberiam informática, estudariam inglês, tipo aqueles
cursinhos da globo, e teriam sonho de trabalhar no shopping. Juntamos uma turma, mas não
tínhamos dinheiro, então entramos na Rubem Braga da Prefeitura de Vitória.
No grupo de trabalho contamos com a co-direção de Lizandro Nunes e Virgínia Jorge. Quanto à
escolha da atriz, Janine Corrêa foi surpreendente: estávamos testando algumas candidatas, e
tivemos que fazer uma pausa de dois meses para a Virgínia rodar o vídeo “De amor e bactérias”,
em 1999. Quando retomamos o trabalho, estávamos em dúvida entre três candidatas. Janine era a
única que manteve a personagem do jeitinho que havíamos deixado ao final da primeira série de
laboratórios. Ou melhor, ela não só manteve o tom da personagem, como também o aprimorou.
Com um detalhe: ela sequer pode ensaiar em casa durante todo esse tempo, uma vez que o roteiro
havia sido esquecido na casa de Virgínia. Depois dessa prova excepcional de talento e
potencial, não tivemos mais nenhuma dúvida: ela foi escolhida na hora.
Rodamos em 1999, todo mundo trabalhou de graça, pois a verba do concurso ainda não tinha saído,
estreamos em 2000.
3 – E como foi o processo até chegar no curta Pour Elise?
Erly: De Macabéa até Pour Elise, pensei qual tipo de filme que quero fazer. Em Pour Elise, a
vontade era a de experimentar – queria “errar” tudo ali. O projeto foi aprovado em 2002, mas
só pude rodar em 2004, então tive uma rejeição a história – pelo tempo longo que passou da
idéia inicial até a realização, eu queria mudar tudo, mas tinha o compromisso ético de rodar
o roteiro que havia sido aprovado na Rubem Braga. Decidi então trazer esse meu conflito
pessoal para o roteiro, de maneira metalingüística, como se fosse um filme sobre uma história
que pede para ser contada de forma diferente (daí os personagens dos velhinhos, que se tornam
co-roteiristas no meio do filme). Não foi tão bem recebido quanto Macabéa, mas começava ali
uma história.
4 – E o curta Saudosa? Pessoalmente achei surpreendente, realmente acreditei ter
existido aquela mulher, como foi esse processo de documentário-ficção?
Erly: Um filme de ficção disfarçado de documentário, filmamos em Muniz Freire em 2005,
em vídeo digital, na improvisação, a gente não dava o texto, a gente convidava os moradores
a “mentirem”, e aí já entra a metalinguagem e o improviso, sempre com muito humor. Rodamos
em Setembro e antes de outubro já estava editado. Estreou no Vitória Cine Vídeo no mês
seguinte (inscrevemos no último dia do prazo de inscrição). Em Saudosa eu estava sentindo
a mesma liberdade quanto eu pegava a caneta e escrevia literatura.
5 – O curta Grinalda, foi o que mais gostei, como foi trabalhar aquela improvisação
maravilhosamente bem interpretada pela Letícia?
Erly: Sempre fui muito próximo de Letícia, eu dizia: “o dia em que eu fizer um longa, trabalho
com você”, mas como esse dia ainda não chegou, resolvemos fazer o curta primeiro. E ela vem
do Teatro de Rua, já existe essa coisa da improvisação. E aconteceu assim: eu dava situações
e ia provocando, na hora da edição eu fui retirando minhas intervenções. Misturamos realidade
e ficção, eu já tinha uma idéia que era uma mulher falando de seus ex-maridos, num lugar
fictício. Mas tem situações reais também, como o motoqueiro que acharam o corpo e ela
(Letícia) no caixa eletrônico – explico: minha mãe recebeu um trote telefônico e a pessoa
dizia que eu tinha sido atropelado na Reta da Penha, mas ela sabia que eu estava no Rio.
Como esse havia sido o assunto do café da manhã, pouco antes de sairmos para gravar, Letícia
acabou criando um monólogo sobre um ex que havia passado pela mesma situação, então coloquei
isso no filme. As cenas no cemitério, na lápide foram inspiradas nos trabalhos de Tatiana
Sobreira (um conjunto de três telas, com as inscrições “Diabo não existe”, “Meu inferno
sou eu”, “Meu mau é todo meu”) e a cenas dos saquinho de chá também me inspirei em outra
artista, a Elisa Queiroz, que eram imagens de pessoas nos saquinhos de chá, pedi autorização,
e mesmo aí há uma realidade, porque a Letícia (atriz) tem essa formalidade de receber,
sabe? Põe mesa para café, tira a louça toda do armário, essas formalidades.
6 – E quais as novidades que vem por aí? Já Existem coisas pensadas, ou vai depender de inspirações futuras?
Erly: Com Letícia temos dois curtas realizados depois do DVD: “Eu que nem sei falar francês”,
foi um dos vencedores da IV Mostra Produção Independente - Desconstrução, realizada em Junho
pela ABD – Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas, no Cine Metrópolis,
e está no You Tube. Continuamos com a linguagem da improvisação, ela aparece com a imagem
refletida na tela da tv, assistindo a uma apresentação do cantor francês Charles Aznavour,
desta vez sem cortes, num único plano-seqüência, eu vou provocando Letícia, escondido além
do alcance da câmera, mostro objetos escolhidos aleatoriamente e ela vai improvisando.
O texto, mais uma vez, tem um caráter de comédia.
O outro curta, ainda a estrear, é “Avenca”, também com Letícia. Fala sobre solidão, o dia a
dia de uma mulher que mora sozinha, sem diálogos. Nesses dois trabalhos, continuo utilizando
a metalinguagem e a intertextualidade. São dois trabalhos rodados com recursos próprios,
sendo que o “Avenca” será finalizado em 35 mm, com o patrocínio do Edital de Finalização
de Curtas da Secult-ES.
Vila Velha, 03 de outubro de 2008.
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