Foi há muito tempo atrás, muito tempo. Descobri aquele livro do Adorno que falava do fetichismo na música e a diminuição da audição. A música ensurdecedora, o som que nossos pais detestavam ouvir. Hoje encasquetei que aquela música, odiada por muitos e por isso mesmo adorada por nós, apenas servia - e talvez até mesmo simplesmente existisse - para nos fazer sentir especiais, pouco mais do que isso. Era um som dito pesado, feito para ensurdecer, “seek and destroy” os tímpanos. Não era música para se ouvir propriamente, era o símbolo de nosso abandono, de nossas feridas mais escondidas e que em represália estávamos abandonando também. Como o quê? Tudo, ora!
Então, não sei porque, lembrei que odiava a música de Roberto Carlos – hoje prefiro não odiar nada porque dá menos trabalho. Tem que explicar? Não? Pô que bom! - talvez mais do que isso, eu odiava tudo o que o pacotão do Rei e suas canções representavam: o poder aquisitivo e o consumismo, a Rede Globo, os sorrisos vazios, orgulhosos e pedantes daquelas pessoas que não tiveram escrúpulos de escalar a montanha social e retirar dela até o que Deus duvida. Escolhi me limitar ao básico, quer dizer, nem sei se escolhi... Acho que, na medida que entendia o jogo, fui ficando assim... Entediado e arredio.
Um dia estava fazendo compras no supermercado Carone da Leitão da Silva com a Rio Branco – por falar nisso, é incrível como aquele lugar vive lotado! – e no som “ambiente” estava tocando das canções do Roberto... Era uma época em que eu detestava fazer compras, hoje já não fico tão mal humorado, mas naquela época era um suplício para mim. Batia uma sensação fodida de estar perdendo tempo que nem um idiota, enfim, eu achava aquilo um tiro no saco... Imagine então tomando na cabeça uma após outra daquelas melodias emblemáticas de tudo o que para mim se concentrou de mau gosto, cafonice e tristeza na música popular brasileira. Eu sei que tem coisa pior! Claro!! E a lista seria imensa. O problema é que esse cara é destes o Rei confesso e coroado, conseqüentemente, ele tem que ser necessariamente o primeirão da lista!
Vai que chegou uma hora não agüentei mais e, ao invés de simplesmente ir embora putão da vida sem comprar porra nenhuma, fui procurar a gerência para, como diriam os Piratas do Caribe: parlamentar:
- Amigo, me ajuda. Eu odeio fazer compras. Você está me entendendo? Cara, juro, eu acho realmente um saco! Então, fazer compras ouvindo esse mala do Roberto Carlos ninguém merece, é tortura cara! Muda lá esse disco amigo, pelamordedeus. Olha que eu vou embora hein? – O sujeito ria desembestado, parecia não acreditar e ainda argumentou:
- Mas tem tanta gente que gosta...
- Ô amigo e como tem, mas me ajuda ahê, troca esse negócio lá vai... Se alguém vier reclamar pede pra conversar comigo que fui eu que pedi.
E realmente ele trocou, não me lembro mais nem pelo quê, também ninguém me procurou pra defender a honra Robertocarliana... E eu doido pra dizer umas verdades. Hoje em dia lá no Carone rola disco - sempre o mesmo - daquele rapaz que faz som de barzinho o Emerson Nojeira, segundo ouvi dizer, uma espécie de flanelinha musical de boteco, saca? Aquele cara que tá ali apenas pra te incomodar e depois ainda te cobra por isso. Hehehehehe! Brincadeira, pelo menos não é tão ruim como o mala número um da MPB. Mas para onde é que esse texto ia mesmo? Isso é que dá meter Adorno na conversa...
Degavarzinho (sic) a Letra Elektrônica está voltando de suas merecidas férias...
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Juca Magalhães
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