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Eleições anódinas ou não eleições?
29/06/2010


Antônio Medeiros
 
 
Supostamente, no Espírito Santo, o candidato Renato Casagrande (PSB) representa o palanque para a candidata Dilma Roussef (PT) e o candidato Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) representa o palanque para o candidato José Serra (PSDB).

Só que, enquanto as eleições nacionais parecem começar a ganhar clima e jeito de polarização entre o PSDB de Serra e FHC e o PT de Dilma e Lula, as eleições estaduais no Espírito Santo começam absolutamente anódinas. Se elas fossem hoje, e se o voto não fosse obrigatório, provavelmente teríamos índices assustadores de abstenção e de alienação político-eleitoral.

Será que vamos ter, no Espírito Santo, um solene jogo de faz de conta? Com a situação político-eleitoral até agora praticamente definida - a julgar pelas pesquisas até então -, teremos realmente candidaturas que representem um contraditório, candidatos que se enfrentam em embate político-eleitoral, idéias contrárias, oposição e situação?

Argutos e experientes observadores e analistas da cena política capixaba tentam chamar a nossa atenção, e do distinto público, sobre este caráter anódino - até agora – das eleições capixabas.

O professor Roberto Garcia Simões, por exemplo, tem registrado sua expectativa em torno da definição das propostas dos candidatos Renato Casagrande e Luiz Paulo Vellozo Lucas, para além das platitudes e generalidades.

Já o jornalista Geraldo Hasse chama a minha atenção para o fato de que o debate que travamos desde os anos 90 sobre os “elos faltantes” e “gargalos” na economia do Espírito Santo - a partir de formulações pertinentes de Eliezer Batista - continua pertinente e atual. Isto porque o crescimento do Brasil – e do Espírito Santo - cria “gargalos novos” e chama a atenção sobre os “gargalos velhos”, digamos assim. Tratam-se de investimentos que precisam ser feitos em infraestrutura física, social e tecnológica para superar a (velha) discussão do PIB potencial brasileiro e a (também velha) discussão da baixa capacidade de agregação de valor da economia capixaba.

Só para citar apenas dez “velhos gargalos” (elos faltantes) que ainda permanecem no Espírito Santo: (1) economia plataforma de exportação de commodities que bate recordes de volume de exportações, mas ainda está lá atrás em termos de valor de exportações; (2) Ferrovia Litorânea Sul; (3) Porto (do tipo “Hub”) em Barra do Riacho ou adjacência; (4) Aeroporto de Vitória; (5) BRs 101 e 262; (6) Calado do Porto de Vitória; (7) Centro de Convenções de Vitória; (8) Aeroporto regional do Caxixe; (9) Mobilidade urbana na Grande Vitória; (10) Estímulos prioritários à economia da inovação.

Tudo isto sem falar do déficit social. A lista ainda é grande, portanto. Grande parte da agenda dos anos 90 permanece. A questão central é que o governo Paulo Hartung avançou na superação da crise fiscal, da crise institucional e da crise de autoestima do capixaba.

Mas o governo estadual, a bancada federal capixaba, e as lideranças sociais, empresariais e políticas capixabas ainda não tiverem suficiente capacidade política - regional e nacional - para articular e concretizar investimentos cruciais para o Espírito Santo caminhar na direção da agregação de valor, da inovação, e da diminuição da dependência em relação aos centros de decisões exógenos - nacionais e internacionais - ao Espírito Santo.

Sem falar que no plano das políticas sociais os problemas da segurança, da saúde e da educação se avolumaram. Os dados e informações disponíveis mostram , por exemplo, a gravidade do problema prisional; os indicadores de homicídios; a chamada sensação de insegurança; o problema do atendimento na “ponta” do sistema de saúde; e a questão da (baixa) qualidade da educação.

Sobre tudo isto, o que vão dizer ao distinto público-eleitor os nossos candidatos a governador? E os nossos candidatos a senador, a deputado federal e a deputado estadual?

Ou vamos passar os três meses, do registro das candidaturas às eleições, ouvindo platitudes e observando o desfile de fulanos, beltranos e sicranos? Teremos algum contraditório? Teremos críticas construtivas?

Com a perspectiva de Renato Casagrande vir até a poder ganhar no primeiro turno, será que vamos ter, na verdade, uma Não Eleição? Confirmando-se uma expectativa reinante hoje de que, se houver surpresas, estas vão se dar apenas nas eleições para deputados estaduais, de que eleições estaremos, afinal, falando?

Entretanto, ainda nos resta lembrar mais uma vez da máxima de Garrincha para dizer que será preciso combinar com o povo, já que o voto é obrigatório... E torcer para que os índices de alienação eleitoral (brancos, nulos, abstenções) não venham a ser alarmantes e deslegitimadores do pleito.
robertobeling.com
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