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Radicalismo engavetado
05/01/2010
Patricia Aranha
CORREIO BRAZILIENSE
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Ao longo de três décadas, o partido migrou da esquerda para o centro, ganhou flexibilidade e optou por dar continuidade à política econômica moldada em anos anteriores pelos tucanos
Para cientistas políticos, a guinada do PT para o centro não deve ser analisada apenas sob o ponto de vista econômico. Ela começou nos anos 90, na medida em que o partido conquistava prefeituras e governos estaduais, e foi crucial para a vitória de Lula em 2002, numa chapa que reuniu capital e trabalho, com o empresariado representado pelo vice-presidente José Alencar, então filiado ao Partido Liberal. Houve tensão no início, com petistas vaiando o mineiro na convenção partidária que homologou a chapa em junho daquele ano, mas ninguém hoje no PT aposta que houvesse outro caminho que levasse ao êxito eleitoral.
“O partido político tem que ter flexibilidade para não trair seus princípios, mas não ser idiota o suficiente para fechar seus espaços”, justifica Wagner Benevides, mineiro que dividiu com Lula a mesa de abertura da reunião de fundação do PT, no Colégio Sion, em São Paulo, em 10 de fevereiro de 1980.
Para o cientista político Leonardo Avritzer, da UFMG, um estudioso das inovações trazidas à cena política pelo PT, com destaque para o Orçamento Participativo, o partido só poderia ter mantido o projeto político de esquerda se decidisse não ser governo. “Seria como o Partido Comunista Brasileiro no pós-guerra, sob a liderança de Luiz Carlos Prestes, com fortes lideranças regionais, mas que não chegou a ser governo. Para chegar ao Planalto, o PT precisou compor. Se teve que abrir mão de bandeiras importantes da esquerda, continuou empunhando outras que levaram a conquistas de destaque no governo Lula, como a redução das desigualdades sociais, como o programa Bolsa-família e o avanço na área da Educação”, analisa.
Já para a cientista política da Unicamp Rachel Meneguello, que estuda o PT desde a sua fundação, hoje ele está localizado na centro-esquerda. “O PT é um partido de massas de centro-esquerda. Desde os anos 90, o PT veio movendo-se lentamente para se aproximar mais do centro, e foi esse movimento que deu condições de compor forças para a vitória em 2002”, disse. Lembrando que a legenda foi formada na matriz de uma esquerda social que define o socialismo no horizonte da construção democrática, Meneguello diz que, uma vez no governo, “o partido soube mover-se na contradição imposta pelo estado contemporâneo e pela economia globalizada, encontrando espaço necessário para implementação de políticas com claro timbre petista, como a redistribuição ampliada de renda”.
Idade explicaria trajetória
Reeleito ao final de 2006, Lula justificou sua trajetória até o centro dizendo que a esquerda é para os jovens.
“Se você conhece uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problema.
Se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, é porque também está com problema”,
disse, arrancando risos da plateia formada por empresários e intelectuais. A declaração havia começado com Lula analisando que havia se tornado amigo de Delfim Netto (ministro da Fazenda durante o regime militar), depois de ter passado 20 anos o criticando.
Na visão de Lula, faria parte da “evolução da espécie humana” a confluência para o centro. “Quem é mais de direita vai ficando mais de centro, quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos à esquerda, e as coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos que você vai tendo e a responsabilidade que você vai tendo, não tem outro jeito”, disse.
E acrescentou que o ponto de equilíbrio chegava aos 60 anos, sua idade na época. “Porque a gente não é nem um nem outro (nem novo nem velho). A gente se transforma no caminho do meio, aquele que precisa ser seguido pela sociedade”, afirmou. Essa postura acabou afastando alguns antigos companheiros do PT, que saíram em busca de partidos mais à esquerda.
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